Projeção
Tenho uma profunda
entrega. Entrega a dois hábitos que tomo para mim, sempre que a vida perde o
rumo que a gente acha que tem que dar, quando tem os menos de 20 anos, como
Caio fala no conto. O conto do rapaz mais triste do mundo. Enfim.
Amo intensamente o
inexplicável outro, em cada ponta, cada frecha de convívio tácito, ou efusivo,
explosivo. Amo essa extrema intensidade que nos faz fincar os pés nos solos
mais instáveis, ou até mesmo rondar as cidades, seu suor e sua lama em cada
esquina da noite que pulsa solidão desmascarada. Em Fortaleza ou São Paulo,
fui/tenho sido intenso. E quando a intensidade chega ao ápice e me canso de mim
mesmo me tomo pelo segundo hábito: Observo.
Observo de longe o outro,
os outros. Cada nuance de suas faces, rugas incompreendidas, histórias
inacabadas. Um passatempo imaginativo, contemplativo. Pois os outros nos
lembram das nossas solidões intensas, mesmo quando amamos. Os outros são tão
solitários como nós somos, e prometem mundos e fundos em troca de uma companhia,
por um pouco dessa intensidade que transita com essa solidão observadora. Os
outros são tão meus, quanto são nossos.
Percebo que esses hábitos
não são só meus. São de todos. Do mais amado e simbiótico e torto outro que se
divide e se integra a mim, ao mais completo estranho em sua infindável busca.
Como no conto de Caio. Três em um. Sete bilhões em um. A saber. Pois todos
somos solitários, amantes intensos e observadores, compartilhando bilhões de
momentos de fuga simultânea. Queremos sempre algo do outro. E um dia achamos,
só pra nos fodermos, ao som de um blues, cerveja e fumaça. Um emaranhado
interligado de desejos.
E chego à conclusão que
esses hábitos podem nos definir das mais variadas formas, se é de definições
que a vida se sucede, se segue, se classifica: "Peixes cegos sem
caminho"; "Dragões que não conhecem o Paraíso.", Eternos
dependentes da entrega, da permanência e da fuga. Não que isso seja ruim, como
soa o peso das palavras, não. De fato não é. É mais constatação tardia, numa
madrugada intensa em leitura, solidão, e observação do que qualquer outra coisa
ou julgamento. Estendo os olhos, pra esse recorte de mundo, pra me entregar aos
meus hábitos, as minhas manias, a minha angústia e um pouco de medo. O mel
talvez venha amanhã. Talvez. E talvez não venha mais, ou sim. O horóscopo
exigiu desapego; o tarô do dia exigiu atenção à guerra; as cartas não mentiram
em uma só palavra desde o começo do ano. E eu? Eu só observo, enquanto finjo
que não sinto. Ou só sinto, enquanto só me resta sentir.
Tenho uma profunda
entrega, às minhas manias e minha forma torta, quase diminuta e já cansada de
ser. Não que seja ruim, longe disso. É que me sinto projeção de estrelas.
"(...)Peixe
cego ignorante de meu caminho inevitável em direção ao outro que contemplo de
longe, olhos molhados, sem coragem de tocá-lo. Alto de noite, certa loucura,
algum álcool e muita solidão.
Quero mais um
uísque, outra carreira. Tudo aos poucos vira dia e a vida - ah, a vida - pode
ser medo e mel quando você se entrega e vê, mesmo de longe. Não, não quero nem
preciso nada se você me tocar. Estendo a mão.
Depois suspiro, gelado. E te abandono."
– Caio F. Abreu, ‘O Rapaz mais triste do mundo’
Filipe
S. Oliveira, 04/11/13.



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