Ensaio sobre a liquidez.
II
Todos os caminhos — nenhum caminho
Muitos caminhos — nenhum caminhoNenhum caminho — a maldição dos poetas.
"O Guardador de Àguas" - Manoel de Barros.
Hoje me disseram: A dúvida é aquela desculpa que a gente dá quando quer se perder.
Nunca fui de levar muito a sério essa nossa mania de desandar, deslocar e transitar. Sempre fui desses, e com o tempo a gente aprende que a essência da vida tem dessa fluidez e que ela deve ser leve, levada sem muito afinco. A gente nunca pertence a um lugar, mas os lugares pertencem a nós na mesma intensidade que esse desejo ríspido de fuga. De modo que o pertencimento as vezes é muito mais um estado de espírito, que fruto da construção dialética de nossas contradições históricas. Pertencer à nada pertence, e ser a tudo estimula. E o estímulo é potência. Um motor que move montanhas, cidades e suas formigas. Pois o movimento parte do estímulo e rege então, quase que numa relação de causa e consequência, o desenrolar desse ato único que é 'ser'.
Percebi então, que a dialética e a história nos pregam peças tenebrosas. As vezes transitamos na mesma casa, no mesmo espaço, nos mesmos abraços. Como a Terra é ligada ao Sol pela força da Gravidade, penso eu. Daí penso que poderia não ser assim. Que o Sol poderia não ser Sol e a Terra poderia não ser Terra, e nada se atrairia nesse ponto do Universo, nem nós existiríamos - o que me leva a crer que transitar no mesmo 'ser', elemina os outros que poderíamos (ou não) ser.
E cair na dúvida é a desculpa que a gente dá quando quer se perder.
Quando digo que fluidez é um ato de leveza, falo do peso das ideias. A dialética da dúvida nos leva a um estado rotatório, ou tontura. Toda tontura leva a vertigem, e com as ideias não é diferente. Se me prendo com afinco a esse estado de transito, elimino o meu transito em ser quem penso que sou. E me perco.
Todas essas ideias soltas facilmente poderiam compor um portfólio de uma conversa de bar. Algumas cervejas, uns sorrisos soltos, uns olhares correspondentes e outros em plena fuga, seguindo ideias que nos escapam. O que eu poderia ser, se não fosse eu? E o que eu poderia ser se não fosse você (ou ele)? Um gole de cerveja, um trago de trevo e nossa noite havia de estar feita, completa em dúvida. Ou forjaria uma certeza momentânea para adaptar a situação à nossa necessidade, que antes é mais minha do que qualquer coisa: Por que não tomar tudo para si?
Assim não teríamos beijo, e sim beijos; nem amor, e sim amores; Assim não teríamos solidão, mas solidões compartilhadas. Temos, não temos?! E o amor seria mais livre do que já é, e a ideia seria redundante, pra garantir; O homem, não seria mais escravo do homem, pois os homens se juntariam e tomariam consciência de si, e para si - ou não; E seríamos festa, festa constante, ininterrupta; E não seríamos medo, nem vergonha do corpo e da alma; E os cadeados se tornariam chaves e a liberdade destituiria o Estado. Tomar tudo para si, certamente nos daria coisas novas a se somar com as coisas velhas, e nos fazer transbordar. Vazando feito as Cataratas do Iguaçu, e suas águas faceiras, bravas e espumantes que desaguam num poço sereno e fundo.
"Sou água que corre entre as pedras"
Mas a água não sente o que a perna cansa.
Hoje me disseram: Entre o líquido e o sólido, o eterno desejo de ser gasoso. E hoje eu sei que menos sei sobre o amor.


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