Canteiro



Certa vez, um irmão virou-se pra mim e me disse: "Não nos adaptamos. Somos de outro mundo." Concordei, em partes. Mas há sempre um lado da gente que finca os pés na areia da praia.

Tenho problemas para me adaptar à dinâmica do mundo. Creio que grande parte deles veio da infância. A vida ali era muito fácil. O mundo podia cair, com contas a pagar e a frenética jornada dupla de trabalho de uma mãe que cuida sozinha do filho, mas eu sempre tinha o carnaval em janeiro, com o mela-mela na calçada de casa, e o jardim. Ah, o jardim! Era o que mais fascinava. Aos meus olhos era uma floresta mágica, cheia de esconderijos em uma mata densa de mistérios. O jardim era um refúgio, para mim e meus dinossauros. Outro mundo, eu diria.

Lá, até as pessoas pareciam mais claras em suas intenções. Não havia maus. Havia os bons e os ausentes. E não teria que me preocupar com um mundo de aceitações e escolhas. A coisa funcionava em torno de ações e reações serenas. Se corria e tropeçava na raiz da palmeira, o joelho ralava e a minha mãe trazia o Mertiolate. Ele doía mais do que qualquer coisa, mas era a cura definitiva para todos os meus piores problemas. Penso que pra toda criança, deve ser assim. Até pro meu amigo Douglas, que numa hora dessas deve tá na rua do Acervo pedindo uns trocados pra comprar sua única refeição do dia. É preto no branco. Uns trocados ou a fome. Não tinha que ter respaldo moral pra viver. Não tinha pureza ou impureza. Certo, que a gente cresce ouvindo lições sobre o bom e o errado, mas na hora de se fazer as coisas a gente não dava a mínima. Joelho no milho, palmada, cinturão... a gente nunca parava de curiar. Conhecer o mundo era o sentido da vida.

Me lembro de ter conhecido cada buraco na camada de concreto que cercava parte do jardim. Cada formigueiro, cada pé-de-quebra-pedra. Eu desenhava mapas e mais mapas na minha mente e imaginava um monte de mundos ao meu redor, mundos a conhecer. A verdade é que enquanto a gente cresce a dinâmica da vida tende a matar esse nosso prazer de contemplar coisas. 12 anos e a gente vira fermento pro Capital. Perdemos nossos sentidos e em seus lugares ganhamos cartilhas, botas e pôsteres. Vamos lá, propagandear a dinâmica das Relações de Poder. Criamos os bons e os maus, e ainda somos ensinados a nos livrar dos maus arbitrariamente, negando qualquer autocrítica em relação a nossa própria maldade. O bolo da hipocrisia. E tudo o que não é "padrão" é "mau".

Essa manta do desencantamento é cruel. Até as opções que supostamente nos restam são dualísticas: Adaptar-se ou não. Deslocar. Me lembro quando o jardim morreu. A palmeira ficou cheia de cupins e cedeu. Parte dela caiu, quase em cima do telhado de casa esmagando boa parte das outras plantas. Não deu outra, os adultos cortaram tudo. Hoje é um vão quente de concreto, com um canteiro onde tem uma "árvore da felicidade" plantada. Mas não dá em nada. Ela nem foi um presente.



Filipe da Silva Oliveira, 2/5/13

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