Carta #3

Falo de mim.



Tarefa mortal, essa da escolha.

Azul ou vermelho. Maduro ou verde à amadurecer. Se é hoje ou amanhã. Se é agora ou nunca. Se vai ou racha. Se é bom, mas pode machucar ou se é ruim, e é hora de liberdade. “Ah, essa tal liberdade!”. Se é beijo, ou só olhar. Se é desperdício ou vontade da alma. Se o ontem foi só um dia ou o princípio dos novos dias. Os nossos dias. Se é vida. Se é morte. Se acabou, se realmente acabou. Se é dúvida, ou dúvidas.

Tarefa tinhosa, essa da escolha.

O que é escolher, se não seguir uma das múltiplas vias. Se eu pudesse, eu escolhia todas. Todas as que me levassem até você. Se eu pudesse ouvir um “Se é pra ir, vamos juntos!” eu iria sem medos. Matava os antigos, e nem pensava nos novos que hão de vir, pois “o que há de vir” é consequência dos “agoras” que agora construímos. “Se é jazida que se acha, é pedra preciosa que se colhe” já me dizia um sábio moço que hoje já colhe nuvens no paraíso. Quando menos espero, as respostas simplificam.

Não é a poesia, quem vai mudar alguma coisa! Sim, eu tenho consciência disso. Ela só é a livre expressão da vontade.

Pensei em escrever sobre o quão bom foi estar contigo. Mas acontece que não foi. É, e talvez sempre será. Não sei, mas quero que seja. Sempre é um tempo muito longo e intocável. Mas sempre é a vontade. E vontade se mede pela importância. O que acabou? Não sei dizer. Não sei escolher o que é. Tenho certeza daquilo que não é: Te amo. Te amo. Te amo, porra! Ponto. E só. O que fazer com isso, senão expressar?

Qual o caminho a seguir? Tarefa infindável essa de escolher.

Vai ser assim até o fim dos dias. Dos meus, dos seus, dos nossos. Minha vontade é de te encontrar amanhã e te beijar. Te beijar tanto, mais tanto, que vai ser difícil não sentir teu gosto impregnado na minha boca pelos próximos três dias. Minha vontade é de tirar tua roupa e te fazer sentir todos os teus pontos já entregues de prazer. Minha vontade é de ser perfeito, por mais que seja impossível ser, dada a minha conjuntura humanamente perecível. Perfeito na carne, no toque, nos fluídos de prazer que de mim emanam só de te tocar. E se eu quero isso, é porque prazer vicia. Você vicia. E se eu tiver que te esquecer, eu tento, até de forma compulsória, se for preciso, mas vai ser uma dor danada, dessas que a gente insiste em não se causar.

Se eu tiver que te olhar de perto, remoendo a distância, por vezes absurda, que nossos caminhos podem impor aos nossos desejos, eu te olho. Te olho como se olhasse as Pirâmides do Egito, ou os Jardins da Mesopotâmia. Na verdade te admiro, com o ar de quem admira a coisa mais bela do mundo, na esperança de levar ao menos a imagem pro silêncio do quarto enquanto o que se queria era fazer parte da maravilha. Te olho e te levo, junto com todos os momentos que já foram. Sentado de perto, meio longe, esperando algo que ainda pode vir.

E se tu tens medo de tomar minha liberdade com tal sentimento, saiba que ela é minha, sempre foi e sempre será. Tu em nada pode tocá-la, pois esse poder não pertence a ninguém a não ser a mim mesmo. E esse poder não foge da tarefa tinhosa da escolha. Tinhosa, e por vezes saborosa. Continuarei beijando, tocando, amando quem mais puder tocar minha alma e meu desejo. Mas no meu tempo. Pois enquanto houver vontade de ti, nada posso fazer senão dar-me a liberdade de senti-la. Escolha.


Entrega.

Filipe da Silva Oliveira, 16/02/2013

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