Meu último pedido.

"De todas as coisas, eu espero que você permaneça..."



Nosso primeiro mês, coloquei algumas músicas que nos diziam muito sobre o que sentíamos ali. Um cd de capa vermelha, e uma carta escrita a punho. Minha primeira resenha sobre o "nós", e meu primeiro presente, dos mais singelos que já dei a alguém. Espero sinceramente que você ainda os guarde hoje. Para mim é um pedaço meu, que te pertence.

Vieram outras depois. Outras resenhas, outras músicas, outros momentos. Uns bons, uns nem tanto. Mas daquele primeiro presente, algo ficou até hoje. Me lembro da gente no começo, voltando da Praça Verde do Dragão, depois de comermos uma caixa inteira de Bis. Acho que foi ali que escutamos Letuce pela primeira vez. A gente vinha de uma vibe meio receosa. Eu, com meus medos de amar de novo depois de um relacionamento que não acabou muito bem pra mim. Você com medo dos meus impulsos de menino livre, do meu passado recente e meu estado de cura. A música: 


Foi engraçada a nossa reação. Dois meninos com medo do mundo a nossa frente. Nos demos as mãos - numa das primeiras vezes de muitas desde então -  dentro do ônibus, encostamos nossas cabeças uma na outra, sorrimos e seguimos. Guardo esses momentos com muito zelo na memória, porque com o tempo eles meio que criaram vida própria. Saltam as vezes da mente pros sonhos, dos sonhos pra vida cotidiana. A verdade é que eles sempre deram mais cor, num ano que ambos sabemos, foi cinza pra nós dois. A rotina, a distância e todo o imbróglio de dúvidas que fatalmente nos cairiam, uma hora ou outra. A vida pulsando, mostrando outros caminhos, outros desejos. E a gente sendo humanos.

Descobri então que relacionamentos são, antes de tudo, um exercício de força. Nós somos um exercício de força. Uma força que luta constantemente para não desistir do que se é, do que se acha ser. Uma via de contramão. Mas eventualmente encontramos nossas barreiras no meio do caminho. Eu e meu impulso de liberdade te deram medo, durante muito tempo, e eu sei que eu nunca consegui vencer essa tua insegurança. Talvez por isso te sobraram algumas mentiras, algumas fugas, algumas nunca ditas, mesmo com toda a nossa liberdade, que hoje eu sei que existiram. A gente cansa de ser quem a gente é. A dinâmica do mundo nos impõem isso e eu não vou lhe culpar por elas. É só olhar quantas vezes eu já desisti. Das Ciências Sociais, da militância, de alguns amigos queridos, até de nós dois em alguns momentos. Acontece, e isso é o maior ônus de se ser humano. Mas a gente constrói nossas contramãos. Lembro que no carnaval, depois de terminar com você, tivemos a nossa mais intensa noite amor. Fizemos amor, como nunca havíamos feito antes, e daí nada, nem nossos medos, nem nossos anseios, nada nos impediu de nos reencontrarmos e nos re-entregarmos a quem nós éramos. 


E mesmo diante de tudo isso dançamos juntos, só nós dois, ao som da Gal, as luzes apagadas, e a tua respiração antes ofegante, calma sobre o meu ombro. "Você, precisa saber de mim". E eu fico pensando o porque desses momentos, se não para emoldurarmos. Algumas coisas, deveriam durar para sempre. Você me diz, que perdemos nossa leveza. Me diz que me ama, mas que talvez tenha que me deixar ir. Te digo o mesmo, e entramos num "loop" sem fim. Essa ânsia de permanência, misturada a uma vontade plantada de se desvencilhar um do outro. Ontem no teu quarto, te vi em frente a porta numa luta interna angustiante: Me deixar ir pra nunca mais voltar, ou me fazer ficar. Nos fazer voltar atrás. O que é melhor para nós? 

E de novo as velhas regras, meu amor: Não se pode ter tudo, mas se pode escolher aquilo que se quer, e dentre as coisas a que mais nos importa. Essa nossa confusão, pode sim ser mais objetiva do que pensamos. E se nos dermos as mãos de novo, e a Lua, as estrelas do céu. E se nos decretássemos a lei da felicidade, não seríamos felizes de novo, juntos? Se não desistíssemos tanto de nós, talvez sobrasse mais tempo para sermos quem somos, pra curtirmos a nossa vida, juntos? Talvez fossemos mais leves, e não precisássemos mentir, ou fugir. Só ser. Um vida plena, com sofrimento, mas plena.


No fundo, só queria te fazer uma última súplica: Se joga comigo nesse escuro de novo. Se permite me fazer bem e foge desse medo. Sim, pois ainda não encontrei o caminho pra transformar nosso amor em raiva, e nem em poesia. Ele é amor. E ponto. As lágrimas de ontem, falam por si só.

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