Manifesto da Desordem

Pega esse embalo, menino.
Bate na parede, aquele código que vocês criaram pra pedir o socorro do outro, e espera. Na janela, ou na porta mesmo, que vai estar sempre aberta. Quase sempre. Não fecha a porta.

Pega esse embalo, menino.
Põe as coisas nas costas. Cansar cansa. Cansa esse mundo sem contemplações, sem essa parada na beira da praia, descompromissada, pra ver o tempo, partículas e gotículas de chuva e sal.

Para menino. Para de lutar contra tudo e todos. Para de ser o Dom Casmurro do livro, ou o sacrifício da reza. Não há peso que se carregue sozinho. Há "gentes" nadando nesse lago, que se chama solidão. Ás vezes, forjando breves encontros ponta-a-ponta dos dedos das mãos, dos braços já cansados de jogar água para todos os lados. Flutua menino. Porque nadar contra a corrente cansa. Tira o fôlego, afunda a alma.

Pega esse embalo de chuva, menino, e vai pensar. Pensar na vida. Nas escolhas já decididas. Vai e pensa que é mais difícil ouvir um "vem cá, que eu te dou um colo!", do que dizer um "vem cá, que meu colo é teu!" Aprende a ser egoísta, menino. Aprende a ter raiva.

Aprende que o tempo dos homens também cura. Aprende que ele também adoece. Aprende menino, a ter que aprender. Ouvir, baixar a cabeça. "Dois viados na chuva, indo pensar" era ordem de meia volta, não insulto descompromissado do Sargento acéfalo dos tempos de colégio. Entra pra norma, menino. Pois o mundo é pirâmide, e você tem que olhar para cima. Cata teu sonho, menino, e transforma em produto. Esquece o devaneio. Mané sentir! Forte é o coração das máquinas. Eles não palpitam e não param, arbitrariamente. Eles só engrenam esse imaginário do progresso. Não há sucesso com pena, menino.

Menino, acorda pra vida. Que a vida é dura, e você tem que aprender, tem que se tocar. Menino, você é menino e menino não chora.

Menino, silencia essas vozes. Elas não sabem de nada. Não sentem nada que está aí. Leva teu corpo e afunda, menino. Faz o caminho das doces meninas verdes em direção ao mar. O tempo é uma uva. O espaço é uma cobra de duas cabeças, olhos de enguia, dentes afiados. Ele te devora. Devaneio... menino. Mais devaneio.

Pega esse vinho, menino. Pega as tuas coisas e vai contemplar teu espelho. Olha as luzes da cidade, as pessoas em seus intermináveis passos, compassos, despachos. Vê teu eu, fadado ao desespero contido desse cotidiano fugaz. Acorda pra tua vida, menino. Ela é tão comum como os botos são na orla, nessa época do ano. Assuma, menino. Seu lago é amargura.

Copo seco de água, pra vida.

Filipe da Silva Oliveira, 5/4/13.



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