Vênus, casa 9; Revolução em Virgem. Terra desconhecida.

"A criança, quando criança, caminhava de braços caídos. Queria que o ribeiro fosse um rio, o rio uma torrente e este charco, o mar. A criança, quando criança, não sabia que era criança. Tudo para ela tinha alma e todas as almas eram uma só.

A criança, quando criança, não tinha opinião sobre nada. Não tinha hábitos, sentava-se de pernas cruzadas, de repente desatava a correr. Tinha um redemoinho no cabelo e não fazia careta quando era fotografada.
A criança, quando criança, fazia perguntas como estas: Porque é que eu sou eu e não tu? Porque estou aqui e não ali? Quando começou o tempo e onde acaba o espaço? A vida sob o sol não é apenas um sonho? Aquilo que vejo, ouço e cheiro não é apenas a aparência de um mundo antes do mundo? Existe realmente o Mal e pessoas que são más? É possível eu, que sou eu, não ter sido antes de ser, e de repente o eu que sou deixar de ser aquele que sou?

A criança, quando criança, detestava espinafres, ervilhas, arroz doce e couve-flor estufada. Agora come isso tudo e não só por necessidade.

A criança, quando criança, acordou uma vez na cama desconhecida e agora acorda constantemente. Muitos dos seres humanos lhes pareciam belos, e agora só alguns lhe parecem, e com muita sorte. Imaginava claramente o paraíso e agora, quando muito, só é capaz de o pressentir. Não podia imaginar o nada. Agora, tem-lhe pavor. A criança, quando criança, brincava com entusiasmo, e agora só tem esse entusiasmo de outrora quando se trata do seu trabalho.

A criança, quando criança, bastava alimentar-se de maçãs e pão. E assim continua a ser. A criança, quando criança, as bagas na palma da mão eram para ela apenas bagas. E continuam a ser. As nozes frescas punham-lhe a língua áspera. E continuam a pôr.

Em cada montanha ansiava por uma montanha mais alta. Em cada cidade ansiava por outra ainda maior. E assim continua a ser. No cimo de uma árvore colhia cerejas com entusiasmo. Como hoje ainda. Tinha medo dos desconhecidos e continua a ser.

Esperava pelas primeiras neves e continua a esperar. A criança, quando criança, atirava um pau, em jeito de lança, contra uma árvore. E ainda hoje a lança lá estremece."





Peter Handke – Canção da Infância de “Les Ailes du désir” (Der Himmel über Berlin)

Comentários

Postagens mais visitadas