Carta de Alçar Voo
Ao Bando.
Primeiramente, me orgulho de tudo
que pude construir coletivamente nesse espaço. Se digo isso é porque todos sabem que existi e
resisti aqui. Aqui eu vivi intensamente, e vivo. Foi aqui que encontrei o apoio
que precisava nos momentos mais difíceis da minha vida. Foi aqui que eu aprendi
a apoiar, a respeitar, a amar e o mais importante, a lutar pela minha
existência. Sofro homofobia familiar, vi todas as portas se fecharem pra mim. Desandei,
mas foi no Bando e só em Bando que me toquei que era preciso voar. “Uma andorinha
só não faz verão, mas pode acordar o Bando inteiro”. E foi assim que eu construí
a minha história aqui. Em cada ato, em cada Sarau da Lua, no Poço da Draga. Foi
assim, em cada seminário, em cada roda de conversa. Em cada festinha pra viver
a vida. Em cada beijo, em cada carinho. Foi assim, com amor, liberdade e
entrega. Muito me orgulho, e a muito sou
grato. Mas é preciso ter clareza que o
Bando, como tudo na vida, se transforma. Afinal, esse foi sempre o princípio.
O Bando é um coletivo livre,
aberto e referenciado politicamente na esquerda, que constrói a luta contra as
opressões de todas as ordens (machismo, transfobia, homofobia e racismo) e a
luta contra a sociedade capitalista e suas dinâmicas de controle – produtoras e
reprodutoras dessas opressões e seus discursos opressores. O Bando também
sempre se construiu enquanto espaço de acolhimento. Construímos aqui durante
esses quase dois anos um conceito auto referenciado de família – não a família
burguesa – mas uma família que se propõe livre, emancipada, sem hierarquias,
horizontal. Por isso, muitas pessoas que por aqui já passaram, também já
voaram, já seguiram seus rumos. Sou apenas mais um fazendo isso, pelos motivos
que coloco aqui agora:
Como todo espaço político, o Bando
17 de Maio também possui as suas contradições. Como já coloquei em outro texto,
cabe a nós enquanto bandidxs, amigxs e companheir@s construir - mesmo que às
duras penas - a nossa coerência política e a nossa desconstrução enquanto
sujeitos carregados por uma história para que, só assim, possamos construir a
nossa emancipação coletiva. Algumas contradições vinham pesando em mim já há
bastante tempo, mas escolhi subverte-las e continuar lutando e trabalhando
nesse espaço. Hoje, infelizmente, já não dá mais. Faço isso por que acredito
que um espaço de militância não pode ser personalista. Aprendi no ME e aqui que
o que nos diferencia enquanto militantes são nossas praticas políticas na luta
cotidiana, o nosso objetivo político e o motivo que nos leva a luta. Aprendi
que fora isso, continuamos sendo seres de contradições e que às vezes o maior
erro desses espaços de militância seja justamente personalizar no outro a razão
e a energia que deveriam mover a nossa luta contra as coisas que realmente nos
oprimem. É principalmente o personalismo, associado à falta de prática e
formação política, que levam os coletivos e partidos a se estagnarem e se
entregarem na disputa pelos espaços institucionais, não enquanto espaços
estratégicos, mas sim enquanto espaços que valem “a vida” de seus militantes.
São essas duas deficiências associadas que esvaziam nossos discursos e,
infelizmente, a nossa prática coletiva.
Junto a esse esvaziamento vem a
confusão que se cria entre o discurso do opressor e o discurso do oprimido. E não
podemos em nenhum momento, enquanto coletivo que se propõem a lutar contra as
opressões, ceder a essa contradição. Não podemos em momento algum ceder nossos princípios,
e por mais que eles não estejam escritos em uma carta ou estatuto, eles nomeam
nossas praticas e dão o tom do que, pelo menos, vínhamos construindo. E se @
companheir@ agrediu “n” pessoas no coletivo, verbalmente ou fisicamente, se ela
praticou Transfobia com um membro do mesmo, enquanto Bando convidamos ela a se
retirar desse espaço. Mas também, enquanto Bando, não deveríamos ter debatido o
machismo que @ mesm@ companheir@ também sofreu aqui? E a coersão (ou piadas e “brincadeiras”
personalistas) que vem sofrendo pelos membros dele desde então? E suas
contradições? Porque também não fizemos isso? E se um@ outr@ companheir@ de
luta, por contradição, torna-se @ agress@r também, o que fazemos? Silenciamos?
Abafamos? Fazemos juízo de valor pra saber qual das duas situações é mais ou
menos opressora? Até que ponto nós, enquanto coletivo, também não nos tornamos
opressores se nos falta a clareza em tantas coisas? Até onde nosso discurso se
confunde em suas debilidades?
Aprendi no ME e nesse espaço, que
a autocrítica de nada vale se caímos nas mesmas contradições. E que é
justamente essa recorrência que acaba nos tornando meros propositores da
construção de uma emancipação com a qual não podemos lidar. Mas é preciso
também ter clareza de que as coisas se dão por processos, e o processo aqui é
pedagógico. Como superamos nossas contradições e nossas limitações enquanto
sujeitos e enquanto coletivo? Proponho essas reflexões pro meu querido Bando, para
que ele as debata também enquanto “Bando”. Principalmente enquanto o coletivo
livre, aberto e horizontal que eu tive a oportunidade de fundar com pessoas
muito importantes para a minha história como o Pedrinho, o Valdemar, o Mineiro,
o Mateus Brandão, a Shis e tantos outros, que já não mais estão voando em
Bando, pelo menos com a mesma frequência de antes.
Deixo claro também que me afastar
ou não me reivindicar mais enquanto Bando, não me impede de construir o ENUDS e
o Pré-ENUDS. Conheço esses espaços e sei
de suas potencialidades e contribuirei com o que eu puder para construí-los
dadas as minhas limitações. Também pretendo continuar tocando as minhas tarefas
no Planejando e Vivendo em Bando, se o coletivo permitir. Me afastar também não
me impede de construir a minha luta diária. Para mim, existir continua e sempre
continuará sendo o mesmo que resistir! Acima de tudo, não encerro uma história
aqui. Inicio outras!
Sempre voando, passarinhxs!
Filipe da Silva Oliveira.


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