Todas as coisas precisam morrer



Me lembro de num fim de tarde de um março qualquer estar sentado sobre um tronco de madeira chorando pela morte do meu cachorro. Eram três. A Sussy era da minha mãe, o Indiamin, - o mais velho – era da minha avó, e o Tintim, como o do desenho e filho dos outros dois, era o meu. “Porque o mais novo teve que morrer? Porque os pais tem que enterrar os filhos?” eu pensava, enquanto estava aos prantos sentado naquele tronco vendo a minha avó abrir um buraco enorme no chão pra onde ia o corpo desfalecido do meu cachorro, no que naquela época era um quintal enorme, cheio de árvores. Aquele foi meu primeiro contato com a morte.

No meu segundo contato, vi o jardim e o mesmo quintal ser reduzido a metros e mais metros de concreto batido no chão. Com eles foram todas as vidas que marcaram minha infância. As rosas de quatro cores diferentes que pintavam o jardim; a palmeira – meu castelo mágico; os embuás que eu colecionava no meu potinho de insetos, os meus peixinhos beta, que viviam na caixa d’água do jardim. E as formigas que vivam entre os pés de acerola, os de limão galego e os de tangerina do quintal. Depois vi morrer, uma por uma, as vizinhas mais antigas do Bairro, e melhores amigas na minha avó. Carregando memórias, história e a velha rua de pedra batida.

Vi morrer um primo, de câncer, cirrose e mais alguma coisa. Levou um sorriso de poucos dentes e uma coragem única de viver na família, que eu confesso, transplantei um pouco pra mim. Vi morrer meu medo do mundo, que me tirou alguns filtros necessários pra vida. Morreu com isso um monte de amores desses que a gente nutri pela família desde pequeno. Coisa de menino que acha que a mãe sempre vai estar quando se mais precisa dela. Nem sempre elas vão estar, e nem precisam.

Me lembro, e essa é uma das que mais me doem, de ver o corpo do meu pai estirado em cima de uma maca do lado da capela de um hospital. Lembro da minha mãe perdendo o seu mundo, e eu tentando me achar ali, entre aquele enorme vazio, pra fazer alguma coisa que a consolasse. Mas não tenho o poder de reviver  pessoas. 


Todas as coisas morrem. Cedo ou tarde. Na hora certa do dia onde elas precisam deixar mais estrago, ou finalmente trazer o equilíbrio que a vida carece. Os bichos, as pessoas, as plantas, os sóis. O amor. Todas as coisas precisam morrer.

Comentários

  1. O movimento da vida e da morte pode ter significâncias quando revivemos as memórias deixadas. Memórias essas que vivem e são restituídas na tradição do tempo. Na memória podemos guardar nossos amores e nossos rancores. As escolhas são partes nossas. Das nossas escolhas nascem nossas flores e ervas daninhas no jardim do tempo. Beijo no teu coração!

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