Os bichos noturnos saem à noite para caçar...
Outra noite, estava eu sentado na beira do vento olhando as estrelas. Um jovem, de vestes simples se aproximou e perguntou: O que o senhor procura aí?
Olhei para ele e para as estrelas, tomei um ar e sem respostas lhe retruquei: Porque a gente sempre tem que saber de tudo?
Ele me olhou bem fundo nos olhos e com os olhos guiou os meus até a faca que estava entre o seu calção e a sua barriga com fome. Uma faca dessas de passar pão, de cortar carne e deixar algumas feridas. Como não fosse o bastante, seus olhos me guiaram para as estrelas novamente. Ele então respondeu: "Você tem que saber o bastante pra sobreviver aqui em baixo". Tirou a faca da calça e pôs do meu lado, subiu no bloco de madeira onde eu estava e sentou comigo na beira do vento, me oferecendo um pouco de cachaça.
Começamos então pela ponte. Porque uma ponte tão longa? Ele me contou sua teoria: Ela havia sido feita para que os homens ricos pudessem ver e sentir de perto a brisa e as ondas que vem do leste. Segundo ele, a brisa e as ondas foram privatizadas pelos ricos nesse dia. Indaguei então: E ainda hoje, o que impede dos pobres virem aqui na ponte?
- O medo. Me respondeu. O medo é o pior mal de gente pobre.
- E quem nós somos aqui? Ricos ou pobres?
- Você é rico. Vem aqui sem medo. Eu sou pobre, venho aqui com uma faca, compartilhar do meu medo.
- Não estou com medo de você.
- Mas devia.
Olhei para o lado, onde haviam algumas pedras onde algumas pessoas ensaiavam sem pudor, um Ménage. E eles, por que vem aqui? Perguntei.
- Um dia é da caça. Outro é do caçador.
- Como assim?
- Os bichos noturnos saem à noite para caçar...
- Talvez isso faça sentido.
- E você, por que olha as estrelas?
- Porque acho que já sei demais sobre as coisas daqui de baixo.
- Talvez, não saiba.
Bebemos o resto da cachaça em silêncio. Depois saímos para deixar os amantes mais á vontade, não que já não estivessem. Ele pegou na saída da ponte um saco com latinhas e me chamou para a tarefa da noite. Limpar a ponte dos ricos. Achamos um Rum no meio do caminho e também o bebemos. Vemos o sol nascer contando causos do mundo terreno, enquanto as estrelas sumiam no horizonte.
- E o horizonte? De quem é? Perguntei.
- O horizonte é de todos.
Saí rumo a parada de ônibus. Já era hora de ir pra casa. No meio do caminho, por algum motivo apaguei. Acordei sobre o sol de meio-dia, quente, seco e que também é uma estrela. Sem blusa, sandálias ou identidade, mas com um saco de latinhas do lado. Descalço, me vi pobre e com medo. Mas sem a faca no bolso.
O jovem estava certo. Talvez, eu não soubesse.


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