Tiros, ratos e baratas

Há, aqui e ali, esperando em cada esquina um perigo invisível. Se sai à rua e se volta da rua, observando a espreita entre as muretas, placas, becos e desvios, o perigo a sair das sombras para nos pegar. E nós, como se fossemos ratos assustados com os gritos e as vassouras a voar sobre nossas cabeças, corremos desesperados para uma toca, sujeita aos mais torpes intemperismos e também ao temido perigo, que ainda lá aguarda, cerca, impregna, móveis, portas, talheres, queijos e avelãs. O veneno.

E aos ratos, bem como as baratas só resta a volubilidade da vida. Hoje pode se estar vivo, mas amanhã uma senhora, gorda, grisalha e terminal, mesmo de meia idade, pode pisar sobre minha cabeça e tudo se esvair. Bem como os ratos e as baratas, tudo está sujeito ao perigo que espreita, entre carros, motos, ônibus e charretes, bicicletas, monociclos, aviões que somem e uma ligação do presídio. O perigo é invisível. Nos espreita, e como num relâmpago mostra a cara e some.

Outro dia vi um homem com um nó na garganta.   Alguns dentes banhados a ouro e histórias intragáveis sobre o perigo. O medo que nos ronda é um véu que cobre o mundo, disse. E mais: Se nos sujeitarmos a esse perigo nada irá sobrar. Cerque então suas propriedades, seu corpo e até sua alma. Paguemos uma indulgência para nos proteger das ameaças exteriores que nos cercam e garantir mais um pedaço de terra cercada nas propriedades divinas do latifúndio do Senhor. O medo está nas inverdades e nos discursos que dominam essa vida-caos que nos impõem.

E o perigo que espreita e que nos vela o ato de emancipar-se, se organiza em marchas com Deus pela liberdade, nazistas democratas, reformistas cegos e idolatras de Malafaia, em soldados da PM, e os xenofóbicos do Bairro da Luz. Deles, nós e os ratos: O olfato dos oprimidos fareja mentira. Mas porque então é ela que parece controlar nossos caminhos e estancar nossa revolta?

Há aqui e ali, um estampido de bala ecoando na minha janela, interrompendo o meu sonho e me deixando preocupado. Levanto, olho pelas frestas e me deito mais uma vez. Há uma mentira controlando meu sono, me fazendo dormir 6 horas por dia, acordar, levantar, comer, sair, trabalhar, produzir, 8, 10, 12, 15 horas e morrer sem ter feito nada de fato na vida, até a bala que estampe lá fora me acertar em meu domínios e de mim escorrer o misto do suor cansado, sangue e mijo. O perigo que espreita e nos torna imóveis, força de trabalho da cadeia produtiva da apatia, sem vontades ou devir, entre máquinas, serviços, hierarquias e a obrigatoriedade da felicidade. O medo é o mesmo medo que nos impede de entristecer, adoecer, parar e rescrever o caminho. A data, o marco e o compromisso que não é nosso.

 
O perigo que espreita


 E o perigo abunda e ocupa a resistência. É preciso desvelar o véu que cobre o mundo.

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