Antropologia do Eu; Natimortos.
“Haiti, mon pays,
wounded mother I'll never see.
Ma famille set me free.
Throw my ashes into the sea.
Mes cousins jamais nes
hantent
les nuits de Duvalier.
Rien n'arrete nos espirits.
Guns can't kill what soldiers can't see.
In the forest we are hiding,
unmarked graves where flowers grow.
Hear the soldiers angry yelling,
in the river we will go.
Tous les morts-nes forment une armee,
soon we will reclaim the earth.
All the tears and all the bodies
bring about our second birth.
Haiti, never free,
n'aie
pas peur de sonner l'alarme.
Tes enfants sont partis,
in those days their blood was still warm.”
Esse
é sem dúvida um dos poemas mais bonitos já escritos pela mão do homem. Ele fala
do cotidiano dos povos “natimortos” do Haiti. Uma homenagem às almas não
nascidas de um país devastado pela guerra, fome e miséria. Guerra, fome e
miséria causada por uma guerra civil já tão longa, que muitos sequer lembram o
porquê dela ter ocorrido. Muitos nem lembram o porquê de tantas guerras no
mundo. A máquina humana parece ter nascido desse eterno combate, dessa eterna
ânsia de sei lá o quê. Combate sempre injusto, pois enquanto crianças fogem
para os rios, e se escondem nas florestas, soldados passeiam perenes, segurando
seus rifles. Lembra o poema: Guns
can’t kill what the soldiers can’t see.
Lembro
de minha estadia em São Paulo, a verdadeira capital desse imenso Haiti chamado
Brasil. Lembro da grande floresta de pedra, escondendo seu exército natimorto
bem dentro de seu coração. E enquanto esses espíritos desolados se reuniam em
meio a um ordenado caos alienígena, os soldados do cotidiano, perenes,
reivindicavam o patrimonialismo. Não tinham nada, além de si. Seu poder, no
entanto, era tão grande que todo o resto era invisível. Ao invés de armas,
seguravam pastas como se fossem suas vidas. Espreitavam o metrô ao invés de
tanques de guerra. E consideravam pretos, todos aqueles que usavam chinela em
pleno inverno. Ah, o inverno! Eles também não o reclamavam. Tudo o que lhes
importava era o passageiro aquecedor humano na Estação Júlio Prestes. Ali do
lado, ficava a Luz. Ao menos isso na cidade era reclamado pelo exército,
naquela época. Ora, eles tinham a luz. Os natimortos, o que tinham?!
Ascendeu
em mim uma experiência antropológica. Estou no Haiti, quero conhecer o Haiti.
Apoderei-me de minhas vestimentas nordestinas, talvez estivesse em casa.
Natimortos paulistas devem todos vir do Norte. Entrei e me passei bem pelos
verdadeiros donos da pátria perdida. Mas ao contrário do que pensava, eles não
reclamavam um nome. Nem tão pouco a chamavam de “terra do crack”. Não, era
terra do funk, da “nóia”! Não do crack. A terra da doideira explícita. Me lembro
bem da lúcida experiência, apesar de me
deixar tragar, mesmo sem provar do fruto da floresta de pedra. Entrei na Gira,
e vi os espíritos que reclamavam aquela terra. Tentarei agora descrevê-los. Um,
era muito antigo, apesar do corpo jovem. Daria talvez 500 anos, apesar de
aparentar 13. Andava feito o zumbi que era. Olhar fixo pro nada. Mas não era
bobo. Conhecia seus inimigos, que mesmo julgando-o invisível, reconheciam o
cheiro mortal de cadaverina, urina e bosta, que odorizavam o ar de nossa entidade.
Seu nome? Chamarei de Corpo. Havia
outra que se destacava entre eles. Sentava-se sob um sofá na frente de um
terreno baldio, cercado por grades brancas. Nada mais acolhedor para pretos
velhos, como aquele que estava a minha frente. O sofá parecia convidativo, mas
a entidade nem parecia ligar. Aquela era a sua área, a sua terra, e seus
filhos, filhos da mãe ferida, estavam a festejar. Não me lembro de que data era
aquela, apesar de agora julgar importante saber, já que se festejava algo. À
entidade darei o nome de Pátria, e a
data, basta saber que era meio de ano, e inverno na capital.
Saio
agora de minha experiência. Volto para o embate em Porto Príncipe. Lembrei
agora! Dentro do exército havia outro exército. Talvez o batalhão especial de
fronteira. Esses eram equipados de armas de verdade ao invés dos malotes. Esses
reivindicavam mais do que o patrimonialismo. Reivindicavam a ordem, que se
materializava na contenção. Esses também não julgavam os natimortos seres
invisíveis. Talvez usassem óculos infravermelho. A contenção vinha como ideia
que se concretizava no show das 18hs, nas noites do Centro. Formava-se o
zoológico humano. Esses sim eram soldados de elite. Eles impunham nome sobre
aquela terra. A chamavam de crakolândia, a terra dos cravos, e dos craques! Me
pus a fugir de lá, com minha companhia que estava a me guardar o tempo todo, em
segundo plano. Talvez seu papel tenha ficado tão ao fundo que tenha me
esquecido de mencioná-lo. De qualquer forma, esse é o relato do Haiti, não
dele. Deixá-lo-ei como coadjuvante.
Fugir
não foi uma boa ideia, pois não adiantou. Minha casca nordestina não deixava enganar
minha possível origem, e meu possível destino ali. A tropa de elite não
duvidou. Era um natimorto. Perseguiram-me, desta vez sem os tanques. Montados a
cavalos, talvez para dar um ar épico a empreitada de ambos (minha e deles). Por
fim, não puderam fazer muita coisa, e nem corri tanto assim. Acho que
democracia representava alguma coisa para aquela terra, ainda. Ou talvez eu não
fosse um inseto que desejavam para suas teias. O exército até tentou usar de um
coice, mas o cavalo não respondeu. Sorte minha. Voltei para o clube. Tirei
minha casca. Depois de tudo, fui curti a balada.
Meio
ano se passou, desde então. Muita coisa mudou. Não há mais reduto no Haiti
brasileiro. Não há mais terra. Consequentemente não há quem a reclame. Ao
menos, é assim que o exército da hegemonia quer que pensemos. Afinal, se não há
corpos, não há natimortos. Acabou-se a Crakolância. Acabou-se o Pinheirinho.
Acabou-se o sonho e o (des)sonho. Ao menos, algumas coisas tendem a não acabar.
Por exemplo, o inverno. O sinto no Nordeste, e isso me faz acreditar que em
alguma época do ano ele há de voltar para São Paulo. Ah, me lembrei de outro
dado importante! Ainda lá, ouvi dizer que o exército achou algumas crianças
mortas perto do rio. Diziam eles: “Culpa
do frio!”. O frio cortante de três graus certamente ceifou alguns dos
natimortos, mas a culpa? Não, essa tem um dono, e ele não é o clima. Afinal
essa é a guerra civil, entre perenes e invisíveis. Esse é o nosso Brasil, horas
tão branco quanto os colonos da coroa francesa que ousara sujar o Haiti, tempos
outrora; horas preto, como o sangue das tribos que ainda resistem aqui. Essa
história multicolor, regada ao vermelho rubi, dos “nóias”, dos nordestinos, dos
povos do norte. O tempo soturno, de uma terra dividida por um evidente Capital
da territorialidade. O país que se diz democracia, que um dia já foi ditadura.
E de ditadura, nós haitianos entendemos bem.
Mal
percebi. Aqui ponho minha casca novamente. Sou natimorto, filho da terra. Que
minhas cinzas caiam sobre o mar. Que nas noites de frio cantem o canto do povo
e que o Toré, ou a Gira, ou o rito que lhes couber chamem os pretos, brancos,
índios, caboclos, cafuzos, e que desça o Corpo.
E que sente ao lado da Pátria, e a festa
do meio de ano prossiga. No inverno, ou no sol escaldante, de Porto Príncipe,
Haiti, São Paulo, Brasil. E que a terra seja sagrada, e que ela se revolte. Que
os soldados, armados de malas ou fuzis, se calem, e o Estado se desfaça. Que o
sonho da igualdade ecoe. Que o sonho das crianças exale. Que a fumaça seja
doce, e o rubro seja só a vestimenta. Que a antropologia do eu, prossiga.
Haiti - Arcade Fire
Filipe da Silva Oliveira, 19/02/2012.


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