Flor da Pele/Mar de experimentações

“Ando tão à flor da pele que meu desejo se confunde com a vontade de nem ser...”

Passei no bar da esquina e perguntei:

- Tem experiência aí pra vender?

Um longa espera, uma parede pichada e alguns carros da PM. Conheci ele num desses sites de encontros. Conversamos bastante pelo Skype, desde as coisas óbvias, como o tamanho do pau, a preferência sexual na cama, até a música favorita e o corte de cabelo. Nada é como antes, por isso é melhor se apegar as regras. O que eu sou, o que você é? O que eu quero e o que você quer?
Falamos do sexo, de como ele devia ser. De como ele seria. Do toque da pele, ao cheiro das partes íntimas. Um misto de suor e gozo, eu disse. Ele concordou. Selamos o encontro. Um longa espera, numa praça vazia ás 23hs de onde se via um muro pichado com os nomes dos que já morreram naquela praça. Uma ode à lembrança dos que já se foram pelo anonimato. Uns carros da PM, um trago. Até que ele chegou no local combinado. De lá, fomos pra casa.

A TV ligada, e as atenções dispersas. Ele diz: “Vamos assistir o filme!” Eu digo o mesmo, lançando beijos por todo o corpo já entregue dele. Ele disse: “Eu quero fazer tudo, tudo. Faz 8 meses e chega de espera!”. Eu não entendo, ele realmente queria assistir o filme?! E enquanto eu insistia, menos ele resistia. Estávamos ali, nus sobre a cama, exalando o suor e o gozo que planejamos. A intensidade da batida do seu corpo sobre o meu, o pulsar do coração, a respiração ofegante de quem se joga com toda a energia num vácuo onde nada faz sentido. E pegou o controle e fechou a televisão. Disse; “Agora, eu estou afim!”. Eu disse: “Continuemos”. E continuamos.

Olhei nos olhos dele enquanto o beijava. Ele fechou os olhos, eu me foquei. Erámos dois estranhos compartilhando prazeres sem estranhezas. Ele me puxou para si, me colocou de frente para si e lá transamos como se estivéssemos em um palco. Uma dança de salão em uma pulsão quase simbiótica dos dois corpos. Salivando um ao outro, como quem explora todas as nuances de uma boca, até que... ele gozou, e depois eu gozei. E nós gozamos. Por três minutos permanecemos parados, de olhos fechados e corpos exaustos, lado a lado. Camisinhas jogadas pelo chão, e o estranhamento tomando vida própria. Olhamos um pro outro, fizemos alguma coisa pra comer, ouvimos Bethânia, Gal e Gil, e Ana Carolina, claro. Assistimos TV, deitamos, conversamos besteiras da vida. Dormimos lado a lado, como completos estranhos, praticando o afeto e a repulsa, em uma microescala.

No outro dia acordei e fumamos um cigarros. Oito meses e ele fez tudo e nada, ao mesmo tempo. Um ano e 6 meses, e eu me encontro na mesma situação. Entre similaridades e não similaridades, nos despedimos sem beijos. Acabou ali, e nem chegou a começar. E os dois ficaram felizes... ou só continuaram no mesmo passo.



Ando tão à flor da pele, que a pele esquenta e eu não sei se estou no inferno ou no paraíso. Que meu medo se torna metáfora e a minha vida se torna um mar de experimentações. Fiz tudo e nada numa noite, o que me faz pensar se não perdi tempo numa escala ainda maior. E se não é o tempo que rege a vida, e sua "não-vida", o que esperar que seja?  

As vezes me preservo, noutras suicido. 

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