Às Ficções
A gente ama projeções. Eu chamo de mania de se ver no outro, em sonhos, desejos, expectativas. Quando a gente se apaixona, não existe um botão de "stop", nem um lugar para se reduzir a marcha. A paixão é um carro desgovernado que carrega consigo o nosso destino. Uma locomotiva sem freios prestes a nos levar a um caminho que parece sempre sem volta. Ou o céu das ambrosias ou ao inferno dos corações partidos, dilacerados. Que descarrilha no mero choque de realidade. Pois a gente ama projeções, nossas, dos outros, de tudo. E o amor acaba sendo, no fim das contas, esse ato ficcional.
Te amei. Eu te amei. E quando o amor, não pareceu ser o bastante, ainda sim tentei te amar mais. Eis o meu pior erro: Te amar mais. Porque por mais que a obra não ficcional já estivesse ali, se mostrando em minha frente, mesmo que em relances, nuances bêbados de espontaneidade ou num descuido bobo seu com os seus segredos, a nossa história e a história a qual eu me atei como num nó cego preso a um balão de Hélio rumo a estratosfera, era aquela história de meses atrás. A história do amor que eu cria bastar, tanto pra mim, quanto pra você. Era a história das músicas, das cartas, da iminência da perda. Era ficção romântica com requintes de crueldade. Um livro que me sugou para dentro de si em tantas formas sem o mínimo cuidado ou receio, simplesmente pelo fato de que eu não tinha mais nada para "sobreviver". Era a história dos olhares profundos sem nenhuma palavra de fundo. Dos chocolates na praia, das noites de amor. Do toque na pele que nos matinha acordados para a felicidade, assim eu pensava. "Não se acha o amor de sua vida aos 21", lembra?! Talvez só mais um dos... e quem sabe, passado o efeito mágico da ambrosia divina, nem fosse isso tudo. Mas mesmo assim.
E quer saber, se foram só devaneios, ainda espero que eles permaneçam em mim, como aquela música que parecia ser nossa sempre diz. Quero que eles amanheçam no fim de cada longa madrugada que eu vou passar sozinho, até a próxima ficção com cara de realidade aportar nesse cais cansado de esperar. Por que é assim que tem de ser, uma passagem, um trânsito. Por que no fim do dia, quando eu e você percebermos que não precisamos mais dessas nossas histórias, seremos mais felizes longe um do outro e só.
"Ficou difícil... restou meu velho vício de sonhar."


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