Pequeno trecho de uma despedida.
Carnaval.
Meu cortejo sai à rua, disfarçar de alegria a tristeza que exala e escorre da chuva, à latrina. Como um corpo terreno que encontra em um breve momento um poder divino chamado verdade. E desejo. E liberdade.
às doces alegrias que uma vida tranquila pode trazer. Longe das questões infindáveis da academia, e as arrogantes certezas de quem, mergulhado na dúvida não se permite vivenciar um dia de trabalho pesado. As dores de uma vida normal, na roda da alienação, e da improvável consciência de si. Da compreensão das dores da mãe que te criou, das coisas que provavelmente ela perdeu, que você vai perder também. Um corpo que aprendeu a viver, justamente no momento em que a morte beirou a porta, chamando: "Vem, é hora de dançar comigo! Me abraça, me beija e tece comigo essa valsa suave, menino. Essa nossa valsa, que eu chamo de 'vida'. Deixa eu me divertir também."
Talvez, sem pensar, todos nós comentemos pequenos suicídios assistidos.
Talvez, sem pensar, a gente tenha que dizer adeus, sem saber como.
Carnaval.
Meu cortejo sai á rua, como pedras de moinho que moem, roem e doem. Como um corpo cansado, mas cheio de vida que não quer cessar agora. Como o carnaval, que não quer cessar agora. Que não quer cessar agora. Que não quer... não quer. Cessar, agora.
Filipe da S.Oliveira. 2017.


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