Efemeridades
Um gato de sete vidas, penso eu.
Deveria ter nascido um gato. Evitaria muitos sustos desnecessários, e certas
doses de receio. Quem sabe até eliminaria essa fraqueza que causa vertigem,
essa Insustentável Leveza do Ser.
Pular e cair em pé, penso eu. Assim deveria ser, assim deveria ter sido. Gato
vagabundo sem pedigree. A muitas quadras de casa, se perdendo nas esquinas da
vida como se fosse a última.
Me vi certo dia, sob a sombra de uma
árvore. Pensei, novamente, que deveríamos olhar mais para as árvores. Formas,
força e uma “quase-que” impenetrabilidade. As árvores são fortes, firmes, e se
conectam a tudo que representa a vida. E se existe representação da vida ou do
divino, não há nada nesse mundo mais vivo e celestial que uma planta que se
alimenta de energia, produz vida e dá abrigo e sombra a coisas tão
insustentáveis como nós e os fungos.
E aí me lembro o quão feliz eu seria
sendo um gato de sete vidas. Um constante exercício ao desapego, ou ao apego
programado. Ser dono de si mesmo e de quem se acha meu dono. Sem percas e
danos. Um pulo do telhado, uma queda e caio em pé. De forma rápida e graciosa,
como se nada acontecera na noite anterior ou no olhar anterior, que sucedeu
aquela respiração ofegante e talvez aquela pergunta que não era pergunta que
por sua vez, ficou sem resposta. Gato vagabundo sem pedigree, olhos amarelos, a
expressão da ameaça e da liberdade peregrina na noite. E perder uma, duas,
três, quatro vidas. E se ater a somente três breves oportunidades de vida que
logo trariam um peso significativo, mas ainda assim repleto de adrenalina a
esse constante jogo entre afeto e repulsa, impulso e receio.
E subir numa árvore, para o resgate
daqueles heróis casuais que salvam o dia, mas não a vida por completo. E me
ater às duas vidas que restam. E finalmente ter que escolher. Como numa seleção
natural ao avesso que nos leva ao estado mais primitivo de sobrevivência. E
escolher entre o sujo e o mal lavado, para variar um pouco o nervosismo que aflige
esses meus pés/patas que espalham a terra por debaixo de si, como num ato
instintivo de cobrir os caminhos falhos. Ou quem sabe, no caso do gato, apenas
cobrir o misto de mijo e bosta que a vida tende a ser.
E não querer sofrer por tão pouco ou
quase nada, e finalmente escolher. E escolher a vida errada, a chance errada, e
morrer de novo, só para saber, que a vida no fim de tudo é fatal. E morrer,
dessa vez em definitivo, como um gato vagabundo qualquer ao perceber que nós
passamos a qualquer hora e em qualquer lugar que, ao menos, tenha a sombra de
uma árvore para encher de vida um conjunto de histórias mortas.
Filipe da S. Oliveira,
19/09/2014.



Morrer de vez em quando
ResponderExcluirÉ a única coisa que me acalma
Leminski
:*